Conteúdo do impresso Edição 1380

ALERTA VERMELHO

Nordeste lidera miséria na infância com 1,4 milhão de crianças na extrema pobreza

Relatório da Fundação Abrinq revela colapso de metas sociais, avanço da desnutrição e da obesidade, além de um caso de violência sexual infantojuvenil a cada 10 minutos
Agência Brasil
Mais de 8,6 milhões deixam pobreza; Brasil tem melhor nível desde 2012
Mais de 8,6 milhões deixam pobreza; Brasil tem melhor nível desde 2012

O Nordeste lidera o ranking nacional da extrema pobreza infantojuvenil e da vulnerabilidade social, concentrando 1,47 milhão de crianças de até 6 anos na miséria absoluta e registrando a segunda maior taxa de mortalidade infantil do país (13,5 óbitos por mil nascidos vivos). Os dados alarmantes constam do relatório oficial Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2026, publicado pela Fundação Abrinq. Baseado em indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação (MEC), compilados até 2024 e 2025, o documento acende um alerta vermelho para o descumprimento das metas de desenvolvimento social da Agenda 2030 da ONU e revela o colapso do Plano Nacional de Educação (PNE).

O diagnóstico marca o encerramento de um ciclo decisivo para o monitoramento social no Brasil. Longe de bater as metas estabelecidas para a década, o relatório expõe a grave paralisia do poder público e a lentidão na transformação de realidades estruturais que sufocam o futuro de crianças e adolescentes.

O Abismo da Pobreza Monetária Crônica é gritante e a infância continua sendo a faixa da população mais duramente penalizada pela desigualdade econômica no país. Enquanto a pobreza atinge 24,5% da população geral (53,1 milhões de pessoas), os índices quase dobram entre os menores de idade. No Brasil, 40,8% das crianças de até 12 anos e 40,9% das de até 6 anos encontravam-se em situação de pobreza em 2024, sobrevivendo com renda mensal familiar per capita de até meio salário-mínimo (R$ 706,00).

O cenário que mais chama a atenção é o da miséria absoluta. Cerca de 14,7% das crianças de até 12 anos vivem na pobreza extrema, enfrentando uma renda diária de aproximadamente R$ 11,70 (até um quarto de salário-mínimo). Na primeira infância (até 6 anos), o país contabilizou 2,9 milhões de menores nessa condição. O Nordeste lidera isolado esse triste ranking com 1,47 milhão de meninos e meninas na extrema pobreza, seguido pelo Sudeste com 737 mil.

Saúde e saneamento básico também estão em ruínas

A sobrevivência na infância esbarra em gargalos históricos e na falta de infraestrutura urbana essencial. A taxa nacional de mortalidade infantil manteve-se estagnada em 12,6 óbitos por mil nascidos vivos, sem apresentar redução real quando medida ao longo da última década. No Nordeste, o índice é ainda mais trágico: 13,5 mortes por mil nascidos vivos, superado apenas pela Região Norte (15,7).

A crise começa no berço: o percentual de bebês nascidos com baixo peso (menos de 2,5 kg) subiu para 9,5% no país, consolidando o maior valor de toda a série histórica do estudo. Além disso, dados de saneamento apontam que 34,2 milhões de pessoas seguem sem acesso à rede geral de água e 81,8 milhões estão sem coleta de esgoto. Essa privação expõe os menores a riscos de saúde severos e é classificada no relatório como o principal desafio estrutural do Nordeste.

O colapso das metas educacionais está em evidência e o balanço na educação reflete o descumprimento de compromissos institucionais. O ano de 2024 marcou o fim da vigência do Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024) sob um cenário de fracasso político: apenas duas das 20 metas estabelecidas foram efetivamente alcançadas pelo país. E ainda hoje milhões de estudantes enfrentam salas de aula sem a estrutura pedagógica necessária para a superação do atraso escolar.

Um abuso sexual a cada 10 minutos

A segunda metade do relatório joga luz sobre a violação direta dos corpos e da dignidade de meninas e meninos, expondo as falhas na consolidação das diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O levantamento estatístico de 2025 revela um cenário brutal de abusos cotidianos: o Brasil registrou uma média de 233 casos diários de violência sexual, sendo que 170 notificações foram contra crianças e adolescentes. A estatística equivale a um caso de violência sexual infantojuvenil a cada 10 minutos em território nacional.

Longe das escolas, os mecanismos de exploração econômica e a violência urbana continuam a fazer vítimas em massa. Em 2024, o Brasil registrou 1,64 milhão de crianças e adolescentes (de 5 a 17 anos) em situação de trabalho infantil, com o Nordeste liderando o indicador ao concentrar 547 mil registros. No mesmo período, a violência dizimou vidas jovens de forma inaceitável, notificando 5 mil homicídios de crianças e adolescentes com até 19 anos no país.

Em 2025, o IBGE estimou a população residente no Brasil em 213,4 milhões de indivíduos, sendo que 57,2 milhões tinham até 19 anos de idade (26,8% do total). A Região Sudeste, por ser a mais populosa, concentra a maior quantidade absoluta, com 21,7 milhões de jovens (38% do público nacional). No entanto, proporcionalmente, a Região Norte é a mais jovem, onde 34,1% de seus residentes têm até 19 anos. O Nordeste aparece logo em seguida, com 16,5 milhões de crianças e adolescentes, representando 28,9% da população local.

No recorte de cor e raça de toda a população infantojuvenil do país, a maioria é autodeclarada parda (28,3 milhões) ou branca (23,6 milhões), seguidas por pretas (4,5 milhões), indígenas (553 mil) e amarelas (145 mil).

A escassez de renda reflete diretamente na mesa e o Brasil enfrenta o desafio de combater ao mesmo tempo o déficit de desenvolvimento físico e o avanço alarmante da obesidade na primeira infância. Dados do Ministério da Saúde e do Datasus/Sisvan apontam que o excesso de peso já supera a desnutrição em termos absolutos no país, afetando mais de 451 mil menores de cinco anos. O Nordeste é a região que apresenta o quadro mais grave em valores absolutos, registrando 135.928 crianças de até 5 anos com baixa estatura por desnutrição, 97.762 com baixo peso ou muito baixo e 188.349 com peso elevado para a idade.

Proporcionalmente, o Nordeste registra a maior taxa de obesidade na primeira infância do Brasil, atingindo 7,52% das crianças de até 5 anos. A obesidade infantil em crianças de 5 a 10 anos atingiu a marca de 9,0% no Brasil, consolidando uma tendência de crescimento estrutural que ganhou força na última década e teve o seu pico acelerado pelas restrições da pandemia e pela piora na segurança alimentar.

Fique por dentro

Para fechar o diagnóstico, o Cenário 2026 lista os principais indicadores da Região Nordeste, evidenciando onde estão concentrados os maiores desafios para os gestores públicos locais:

População infantojuvenil: 16.541.805 de moradores têm até 19 anos de idade (28,9% da população total da região, estimada em 57.244.485).

Diversidade racial: Dos 16,5 milhões de jovens nordestinos, a maioria absoluta é de pardos (10.239.904), seguidos por brancos (4.536.825), pretos (1.624.431), indígenas (132.329) e amarelos (16.760).

Extrema pobreza na infância: Líder nacional isolado, com 1.475.264 crianças de até 6 anos e 2.836.343 de crianças de até 12 anos vivendo com renda mensal familiar de apenas um quarto de salário-mínimo.

Mortalidade infantil: Segunda pior taxa do país, com 13,5 óbitos para cada mil nascidos vivos.

Gravidez na adolescência: 13,7% dos bebês nascidos na região são filhos de mães jovens com até 19 anos de idade.

Trabalho infantil: Recorde nacional absoluto em exploração laboral precoce, somando 547 mil registros ativos de crianças e adolescentes trabalhando.

Nutrição infantil (até 5 anos): Região com os maiores índices de desequilíbrio nutricional do país, acumulando 135.928 casos de baixa estatura por desnutrição e 188.349 menores já sofrendo com obesidade e peso elevado.


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