colunista

Isaac Sandes

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Conteúdo Opinativo

Memória, consciência e vida de Louis Lavelle

Divulgação
Olavo de Carvalho
Olavo de Carvalho

Ao examinar as aulas do filósofo Olavo de Carvalho em busca de assuntos ou temas que me despertassem interesse, deparei-me com uma onde se estuda a biografia, o pensamento e a obra de Louis Lavelle.

Em breve resumo, Louis Lavelle foi um filósofo católico francês, nascido em Saint-Martin de Villeréal em 1883 e morto em Parranquet em 1951.

A região em que Louis Lavelle nasceu deu à humanidade outros filosósofos e pensadores a exemplo de Montaigne, Fénelon e Maine de Biran.

Entre 1924 e 1940, ensina em diversos liceus e cursos particulares de Paris e, em outubro de 1941, é indicado para a cadeira de filosofia do Còllege de France, chegando a ocupar cadeira na Academia das Ciências Morais e Políticas.

Em suas obras – Tratados de filosofia, Obras morais; crônicas filosóficas e obras fragmentárias –, entre outras coisas, dedicou-se à filosofia, estudo da mente e suas conexões com a ciência cognitiva. Em razão de sua profundidade e saber, foi chamado por A.D. Sertillanges de “O Platão de nosso Tempo”.

Em toda sua vida, dedicou-se ao estudo do enigma essencial que envolve o homem e sua existência, afastando-se, por assim dizer, do brilho fácil e postiço da fama.

Absorve influências de Octave Hamelin e René Descartes, mas sua genialidade vira tais influências pelo avesso.

Muito resumidamente, foi isto que apreendi na mencionada aula sobre a pessoa de Lavelle. Quanto ao seu intelecto e obra, necessário se faz dedicar uma vida inteira ao seu estudo para que se apreenda minimamente o que ali está contido.

Nesse breve momento de contato com o pensamento do filósofo, não pude deixar de fazer uma particular observação em seu discurso sobre o enigma essencial do eu e da memória humana, no que isto possa representar em relação ao portador do Mal Alzheimer.

O que pode nos parecer desconexo em termos de identidade dos assuntos, na verdade, ao bem examinar-se, torna-se conexo quando soubermos que ambos têm relação com o eu e a memória de cada sujeito, e sua condição humana.

Segundo Lavelle, o poder da memória define a verdadeira essência do eu. A consciência do que somos, nossa identidade surge da interação entre o eu, o ser e o objeto (mundo exterior).

O mundo exterior ou dos fatos, como no entender de Lavelle é instântaneo e, por isso, tais fatos, à medida que existem imediatamente se evanescem e são sobrepostos por novos fatos. Cabe à memória guardar e transformar tais fatos em ato de consciência que constrói seu eu. Assim, sem memória e sem esse eu consciente contido na memória você não existe. Ou seja, a memória é a própria e única substância do eu.

Por tal, é de se adivinhar o drama e o sofrimento que acomete uma pessoa que, aos poucos, vai perdendo essa substância e esvanecendo a consciência de si mesmo. Esse é o drama e sofrimento inicial do portador do Mal de Alzheimer. Até que, ao final da doença, esvaziado de todo seu conteúdo de memória e consciência, torna-se um robô de carne e osso com duas janelas nos olhos que não servem nem para introjetar percepções, nem para transmitir sensações ou seu sentir.

Em seu mundo que é uma folha em branco, o portador do Mal de Alzheimer, não tem passado, presente nem futuro, uma vez que cada um desses estados são todos originários de conjunto de memórias.

O passado, como o próprio nome o diz, é um acervo de memórias, o presente é o momento que vivemos ao usar as percepções dos fatos e os compreendemos em face de nossas memórias anteriores e o futuro, o futuro para Lavelle, é, em última análise, um passado antecipado já que só pode ser elaborado com elementos e fatos e percepções que estão na nossa memória.

Assim, ao contrário do que afirma Mallarmé em um dos seus poemas, para o portador de Alzheimer o momento de sua morte não significará a completitude de sua essência. Ele terá completado essa essência ainda em vida, mas vivendo como um espantalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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