Foi dada a largada. Foi mesmo?
Alagoas conheceu, finalmente, os dois nomes com chance real de disputar o governo do estado: um ex-governador que tenta voltar ao Palácio dos Martírios, e um ex-prefeito de Maceió que deixa a capital para tentar o mesmo posto, em outra escala. Dois nomes conhecidos, duas gestões já testadas pelo eleitor. Não é sobre eles — pelo menos não ainda — que vale a pena escrever agora, enquanto a campanha não descamba para a previsível troca de farpas. Vale escrever, primeiro, sobre o que os dois herdam.
Porque Alagoas carrega, há muitas eleições, um contraste que incomoda: terra de gente generosa e paisagem rara, que segue aparecendo, ano após ano, no fim de quase todo ranking nacional que realmente importa — renda, violência, educação, saúde. É desconfortável escrever isso; deve ser ainda mais desconfortável lê-lo sendo alagoano. Mas ignorar o contraste não ajuda ninguém, e por isso vale a pena, aos poucos, nas próximas semanas, colocar esses temas em pauta — não como acusação a ninguém em particular, e sim como pano de fundo real da eleição que começa.
Um dos capítulos mais dolorosos dessa história segue em aberto. O afundamento do solo em bairros de Maceió, provocado por décadas de mineração de sal-gema, é hoje um dos maiores desastres urbano-ambientais do planeta. Passados os primeiros acordos e indenizações, uma parte considerável de quem viveu ali — em torno de 60 mil pessoas, segundo estimativas — relata não ter recebido nada até hoje, e sente que ficou à margem das negociações. Outra parcela semelhante, que já aceitou indenização, diz que o processo foi apressado e pouco favorável, e gostaria de revisitar os termos.
A Prefeitura, que fechou acordo próprio com a empresa ainda não apresentou à população um relato claro de como os valores recebidos vem sendo usado — algo que talvez mereça mais luz, não por suspeita, mas porque é dinheiro nascido de uma tragédia coletiva e que, por isso mesmo, merecia ser acompanhado coletivamente. Além disso, paira no horizonte um risco concreto: se a empresa avançar para uma recuperação judicial, todo esse passivo das vítimas pode ficar represado por anos, ou ainda, ir para as calendas.
Maceió, especificamente, chega a esta eleição como base política de um dos dois candidatos, que a governou por dois mandatos e sai, segundo pesquisas, bem avaliado por boa parte da população — um dado real, que merece ser respeitado como tal. Convive, ao mesmo tempo, com outra realidade: é hoje a pior capital brasileira em saneamento básico, aparece entre as piores capitais do país — e do mundo — em qualidade de vida e segurança, e carrega o pior índice de analfabetismo entre as 27 capitais do Brasil. Aprovação e indicadores não precisam se contradizer; juntos, só contam uma história mais completa do que qualquer pesquisa de opinião sozinha conseguiria contar.
Alagoas, no seu conjunto, guarda uma trajetória parecida, o outro candidato que já governou o estado por dois mandatos e também deixou o cargo bem avaliado. Houve avanços reais nesse período — a construção de novos hospitais é um deles, e vale reconhecer. Mas o estado segue com uma das menores rendas per capita do Nordeste, uma das maiores taxas de homicídio do país, a liderança nacional em analfabetismo, e uma relação de médicos por habitante — 1,36 por mil — bem abaixo da média nacional de 2,69. É um atraso que vem de longe, tecido ao longo de décadas, e que nenhum mandato, por mais competente que tenha sido, resolveria sozinho.
Um pano de fundo que ajuda a entender tudo isso é o estado deteriorado das contas públicas. Algo que vem de longa data, apesar dos avanços em anos recentes. Alagoas fechou 2025 com déficit de caixa de R$ 605 milhões e dívida de R$ 13,5 bilhões; Em Maceió, não foi diferente, com déficit de R$ 58 milhões e cerca de R$ 5,4 bilhões somando empréstimos e parcerias de longo prazo já contratadas.
Isso não significa que não haja saída — existem caminhos possíveis fora do aumento de imposto, do endividamento e do corte onde não há mais margem: eficiência de gasto, revisão de renúncias fiscais, combate à sonegação e soluções inovadoras pouco exploradas por estas bandas e que pretendemos explorar com mais calma em outro texto podem compor um rol de soluções efetivas de curto, médio e longo prazo para Alagoas.
Não é objetivo deste texto cobrar o que quer que seja de forma precipitada. É só um convite — a nós mesmos, e aos dois candidatos, também — para que esta eleição não se resuma a slogans e ataques mútuos, para que os dois possam explicar, com a profundidade que esses temas merecem, o que pretendem fazer a respeito. O resto — Banco Master, desvios na saúde, e tantos outros temas que certamente vão aparecer — a própria campanha se encarrega de trazer sozinha.
A largada foi dada, mas a corrida que de fato importa não é a que termina na urna de outubro. É a que continua depois, ao longo de quatro anos medidos não em comício nem em pesquisa de intenção de voto, e sim na vida de quem espera uma vaga em creche, um leito de UTI disponível, uma casa que não afunde, e não apenas de sonhos nunca desembalados das caixas.
Os dois candidatos têm, cada um, uma história para contar sobre o que já construíram. Falta agora uma história plausível sobre o que ainda pretendem construir — contada com números, prazos e a coragem de assumir e cumprir compromisso. O eleitor alagoano já demonstrou, eleição após eleição, que sabe dar voto de confiança. O que ainda não teve, com a frequência que merecia, foi a resposta completa a essa confiança depois que as urnas se fecham.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



