É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), cirurgião especializado em cirurgia digestiva e membro do Conselho Editorial do Journal of Gastrintestinal Surgery OPEN (EUA). Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

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Para onde foram todas as flores?


Roberto Sarmento – Titular Emérito de Literatura Brasileira da Ufal e escritor.

Quem assistiu ao filme Bugonia, concorrente ao Oscar de 2025, pode ter visto o que eu vi: um relato sobre a vida contemporânea que conhecemos. Dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos, o mesmo de Pobres criaturas, ganhador do Oscar de 2024, Bugonia (com a curiosidade de que ambos foram estrelados por Emma Stone, sempre magnífica) engana o espectador desde o início. Aliás, enganar, iludir, mentir e disfarçar não é prerrogativa de Capitu, mas de toda obra de arte. O filme começa com dois patetas, ou dois paranoicos, planejando sequestrar, torturar e matar a CEO de um grande empreendimento farmacêutico americano, suspeita, segundo o desvario desses bons companheiros, de ser uma alienígena que teria vindo estabelecer-se no planeta Terra para destruí-lo.

O que não falta no filme é maluquice, sadismo, cenas de tortura física e psicológica, para desembocar numa bem urdida versão da Teoria da Conspiração. Não faltou nem mesmo uma alusão à estúpida ideia do terraplanismo. Michelle Fuller é capturada e entregue a todo tipo de maus-tratos por parte dos dois imbecis. A eles, Fuller jura que não veio do espaço, que é terráquea mesmo; depois muda de ideia e finge ser uma invasora celeste, vinda de Andrômeda, para poder ganhar, por sua “sinceridade”, a confiança de seus agressores e, quem sabe, poder escapar viva. O filme, portanto, enquadra-se no gênero suspense ou thriller policial. Mais um engano: Bugonia é, para surpresa de todos, uma narrativa de ficção científica, mas só ficamos sabendo disso no final.

Sem querer aqui dar o desfecho, que é outra joia do filme, a história termina com uma chave de ouro desoladora: o planeta em que vivemos não tem jeito; vai ser mesmo destruído. O espectro do Mal, de sabor apocalíptico, aniquila tudo e exibe corpos mortos — alguns paralisados enquanto faziam sexo, outros sentados em poses estranhas, outros ainda em situações caseiras banais ou de trabalho. A humanidade decai sob o peso de quem está na parte mais elevada do sistema, e esse, que se oculta, não é Donald Trump nem Benjamin Netanyahu, embora possam estes muito bem estar sendo lidos pela lente de Yorgos Lanthimos, para quem a distopia chega até a ser cômica. E lírica, a começar pela voz grave de Marlene Dietrich que faz soar os versos melancólicos de “Where have all the flowers gone?”, emoldurando, assim, nosso século tão conturbado e vazio de sentidos.

A oposição entre direita e esquerda aparece, em conta-gotas, num diálogo entre os dois malucos e a sequestrada, com direito a uma citação de Karl Marx, a que ninguém dá ouvidos. Em meio à desproporção entre violência e serenidade restaram as flores da canção e alguns volteios de abelhas em torno de flores destruídas pela hecatombe final. O filme de Lanthimos parece ensinar que se perde muito tempo — e paciência — nas discussões inócuas sobre ideologias, já que tudo parece ser desdobramento da mesma matriz — o Poder Absoluto —, que, ao menos no filme, vem do ambiente extraterrestre e, curiosamente, é o mesmo que se vê na Terra, em posições espelhadas.

Quanto mais destruição, melhor! Ninguém quer saber de equilíbrio ou decência e solidariedade. Representadas pelas personagens centrais, as ideologias antípodas dizem a mesma coisa e só na aparência é que são antípodas. Por fim, as flores se foram e não voltam mais. E nem adianta ter saudade de Geraldo Vandré com as suas eternas flores da canção de resistência que compôs para o amacacado período da ditadura militar de 1964. Afinal, flores são para enganar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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